a primeira noite de tranquilidade

“Por que a morte é a primeira noite de tranquilidade? Porque finalmente se dorme sem sonhos!”  Goethe

CLÁUDIO CURI DIZ:
Valério Zurlini (1926-1982), um dos maiores cineastas italianos de todos os tempos, é o diretor preferido de nosso grande Carlos Reichenbach, a quem fazia homenagem na maioria de seus filmes, como em “Dois Córregos”, por exemplo. Nascido em Bologna, estudou direito, tendo estreado no cinema em 1948, com curtas-metragens, antes de desenvolver uma obra intimista, composta por oito longas, iniciada com Quando o Amor é Mentira e finalizada em 1976, com O Deserto dos Tártaros.
Assim como Bergman e Antonioni, os filmes de Zurlini eram carregados de um forte teor existencialista. Mas, diferentemente de seus contemporâneos, fugia da busca pela inovação, partindo de tramas simples e novelescas, com pitadas de melodrama, sem perder as referência existencialistas, como em um de seus filmes mais famosos, A Moça com a Valise.
Alcunhado de “O Poeta da Melancolia”, tinha em seus filmes um cuidado estético e visual, fazendo dos cenários pontos primordiais para o desenvolvimento de seus personagens. A belíssima sequência de abertura de A Primeira Noite de Tranquilidade, ambientada no cais de Rimini (cidade natal de Fellini), embalada pelos gemidos de um saxofone, nos traz o protagonista (Alain Delon) caminhando solitário, tendo ao fundo o vento forte, o mar encapelado e nuvens escuras anunciando a chuva iminente. O professor Daniele Dominici (Delon) com seu sobretudo pesado e envelhecido, barba por fazer, cigarro na boca, mãos nos bolsos, é a própria melancolia personificada.
Será que existe paisagem mais melancólica e solitária que praia em dia de chuva? Esta imagem será recorrente ao longo da projeção.
A Primeira Noite de Tranquilidade é a reflexão sobre a destruição e a decadência de uma família. Alain Delon é o professor de literatura, vindo de um casamento arruinado com Lea Massari (magnífica), que volta a Rimini, no inverno, para lecionar e acaba de apaixonando por uma aluna, Vanina (nome tirado de uma personagem de Stendhal, do romance Vanina Vanini), interpretada pela belíssima Sonia Petrova, que traz um passado escuro ligado à prostituição e a um namorado rico que a maltrata. Fortemente atraídos reciprocamente e identificados na melancolia, iniciam um perigoso jogo de sedução, com diálogos brilhantes e cheios das metáforas de Zurlini. E, juntos, tentarão começar uma nova vida longe de tudo.
O filme conta com participações especiais de Renato Salvatore e do jovem Giancarlo Giannini, como o melhor amigo do protagonista. Delon, aos 37 anos, traz aqui, em minha opinião, a melhor interpretação de sua carreira. Famoso pela lendária beleza, conta-se que, nas filmagens de O Rolls-Royce Amarelo, filme de 1964 do diretor britânico Anthony Asquith, sua co-estrela Shirley MacLaine que, ao ser indagada pela imprensa sobre o que achava de Delon, respondeu:  ‘É a coisinha mais linda que já vi, depois de Elizabeth Taylor!’
Apesar de a crítica considerar Verão Violento e Dois Destinos como suas obras primas considero La Prima Notte de Quiete o grande filme de Valério Zurlini. Disponível em DVD, programa imperdível. 

GERSON STEVES ACRESCENTA:
Ao ver os créditos iniciais da cópia restaurada de A Primeira Noite de Tranquilidade, fiquei surpreso ao saber que o trabalho se devia a um certo Instituto Philip Morris de Cinema. Ao começar a ver o filme, isso fica perfeitamente claro: nos primeiros 20 minutos de fita, parece que o filme existe apenas para que as pessoas fumem – a ponto do assunto ser levado para dentro da sala de aula numa discussão que envolve, de um lado, o professor cool e sexy que defende o direito dos alunos fumarem em sala e, de outro, o diretor reacionário e moralista. Mais adiante, o personagem de Delon para numa banca de jornais e pede por um pacote de Gauloises, o famoso cigarro francês que era o favorito do existencialista Jean-Paul Sartre.

E é aí que a coisa fica boa: a vocação existencialista (por conseqüência ateia) que o filme possui e que se choca frontalmente com a formação católica jesuítica de seu autor. Some-se a isso a paixão de Zurlini pelas artes plásticas – em especial, a arte sacra. O que provoca sequências antológicas com citações dos evangelhos e divagações, como por exemplo a cena em que o casal central dialoga sobre o olhar de resignação da Virgem Maria (no afresco da Nossa Senhora do Parto, de Piero della Francesca).
São muitos os aspectos a serem notados e citados no filme. A começar pela única e forte cena da então veterana Alida Valli, interpretando uma velha prostituta que teria iniciado a própria filha na vida sexual, ainda na adolescência, para, depois, chantagear seus clientes. Outro assunto que fica faiscando por detrás da bruma invernal é a homossexualidade latente de vários personagens: além da lésbica confessa, o personagem de Delon é acusado por sua esposa de deitar-se com homens e mulheres. Noutro momento, fica claro que o personagem de Giancarlo Gianinni é apaixonado pelo taciturno professor de literatura. E até o antagonista, na antológica cena da boate, ousa uma piscadela ao sedutor rival.
Sim, é um filme forte. E extremamente atual; tanto no conteúdo quanto na forma. As metáforas são sutis, a construção das personagens acontece de forma quase que literária – elas não são apresentadas pelo que dizem, mas pelo seu entorno, pela cenografia, pela direção de arte e pela paisagem. E é a paisagem que determina e delineia o perfil psicológico profundamente niilista desse homem que nega seu passado conservador e procura um sentido para sua vida. Em tempo: o filme se passa em Rimini, cidade natal de Felinni e parece uma continuidade mais dura e menos onírica de Amarcord.
Zurlini foi uma surpresa para mim e, com certeza, será para qualquer um que se aproxime de sua obra.

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casanova e a revolução

GERSON STEVES DIZ:

Há um gênero cinematográfico que atrai muitos olhares e os repele na mesma proporção. São os filmes históricos. Nesta seara, você pode incluir os filmes de guerra, os políticos, os biográficos, documentais e até aqueles famosos ‘baseados em fatos reais’. Mas não só. Um filme histórico pode ser absolutamente ficcional. E aqui vai um excelente exemplo.

Esta produção franco-italiana de 1982, dirigida com absoluta maestria por Ettore Scola (sim, de novo ele!), se passa na noite de 20 para 21 de junho do ano de 1791 e procura narrar os acontecimentos relacionados à fuga da família real francesa, saindo do Palácio des Tuilleries ao encontro de tropas aliadas e com o apoio do clero, para escapar das forças revolucionárias. A tentativa se frustra e, apesar de disfarçados e viajando sem pompa ou circunstância, o Rei Luís XVI acompanhado de Maria Antonieta e sua prole são presos na cidade de Varennes.

Casanova e a Revolução (La Nuit de Varennes) mostra esses episódios pelos olhares de alguns personagens bastante improváveis. Numa caarruagem lotada se encontram Nicolas Edmé Restif de la Bretonne (Jean-Louis Barrault), polêmico escritor e editor cujo olhar arguto descobre nas ruas escuras de Paris a dama de companhia de Maria Antonieta, a Condessa Sophie de la Borde (Hanna Shygulla), o revolucionário inglês Thomas Paine (Harvey Keitel) e, de quebra, o bom-vivant e idoso cortesão Giacomo Casanova (Marcelo Mastroianni). Some-se a esse grupo, um peruqueiro afetadíssimo, uma diva da ópera italiana (gorda e insaciável) acompanhada de seu marido (no melhor estilo do corno dominado), cocheiros e criados.

Scola aproveita essa verdadeira fauna para exemplificar a sociedade de classes que se estabelecia na Europa do século XVIII e os pensamentos contraditórios que disso se originavam. Isso porque o pensamento iluminista que nasceu da Revolução Francesa não foi construído da noite para o dia e mesmo o processo revolucionário na França não se deu de uma hora para outra – foi o resultado de um longo processo de amadurecimento e negociações envolvendo o clero, a corte e seus nobres e mesmo a burguesia ascendente. O povo? Esse também é retratado no filme de forma muito curiosa. Afinal, ao povo interessa sempre viver e deixar viver.

Marcello Mastroianni é Giacomo Casanova

As atuações são primorosas, mas Shygulla e Mastroianni são um show à parte. Seu encontro se dá concretamente em poucas cenas, mas ambos conseguem estabelecer uma química em olhares e tempos dramáticos poucas vezes vista em filmes de época. Ela, uma mulher no auge de sua beleza e ele, um homem que já não é mais sombra do que um dia teria sido.

Há sequências primorosas tanto do ponto de vista dos diálogos, quanto da direção de arte – luz, locações e figurinos são dignos de pinturas neoclássicas e românticas.

Também notáveis por sua beleza e significado são as cenas de abertura, em que um inventor anônimo apresenta aos passantes de um porto francês uma invenção capaz de mostrar imagens históricas. O mesmo gancho é usado no encerramento (em cenas disponíveis na versão atual em DVD) que guarda uma linda surpresa ao espectador e uma homenagem igualmente bonita ao cinema.

Este é um perfeito exemplo de filme híbrido em gêneros. É histórico, é documental, é ficcional, é comédia e é drama. É, portanto, bom cinema!

CLÁUDIO CURI ACRESCENTA:
Do genial diretor italiano Ettore Scola já falamos, quando da resenha de O Baile, outro de seus filmes imperdíveis. Vindo de uma geração imediatamente posterior a grandes nomes, como Fellini, Comencini, Visconti e De Sica, Scola é considerado por muitos o maior cineasta italiano dos anos 70 e 80. Neste delicioso Casanova e a Revolução, ele nos dá uma visão muito divertida e interessante da Nuit de Varennes quando ocorreu a fuga da família real francesa e a sua prisão na cidade de Varennes.

Esteticamente belíssimo, com extraordinária direção de arte e composição de personagens, o filme conta com um elenco estelar composto por Jean-Louis Barrault, Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Harvey Keitel, Jean-Louis Trintignant, Jean-Claude Brialy, Daniel Gélin, Andréa Ferréol e Laura Betti, entre outros. Destaque especialíssimo para a participação da grande atriz alemã  Hanna Shygulla, como a Condessa Sophie de la Borde.

Hanna, que foi musa do diretor alemão Fassbinder (As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, Lili Marlene e cerca de mais de uma dúzia de filmes), é também cantora e poeta, que se apresentou  num recital, recentemente no Brasil. Aos 68 anos de idade, após uma carreira fulgurante, andava meio sumida das telas, tendo realizado recentemente duas participações extraordinárias: Do Outro Lado, um maravilhoso filme do diretor alemão Fatih Akin, e Fausto, do diretor russo Aleksandr Sokurov com estreia na Mostra de Cinema de São Paulo de 2011.

Casanova e a Revolução foi indicado à Palma de Ouro em Cannes (1982) e faturou o David di Donatello (1983), nas categorias roteiro, cenografia e figurino. Merecidos.

Hanna Shygulla

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o bebê de rosemary (Rosemary’s Baby)

Poster do File

CLÁUDIO CURI DIZ:
Adoro filmes de terror. Assisto a quase todos, desde os mais trash aos mais elaborados, caso deste magnífico exemplar, dirigido por Roman Polanski, em 1968.
O genial diretor polonês empolgou o Festival de Veneza de 2011 com Carnage, baseado na peça O Deus da Carnificina, de Yasmina Reza, bem como teve lançada uma nova biografia chamada Polanski – Uma Vida, de Christopher Sandford, que tem a conturbada e atribulada vida do cineasta como tema.
Lendo-a, vemos o porquê dos filmes de Polanski sempre apresentarem uma visão macabra e pessimista do mundo: perdeu a mãe em Auschwitz, teve sua mulher (a linda e talentosa atriz Sharon Tate) assasinada, grávida, em 1969, pelo bando da seita demoníaca de Charles Manson e foi condenado por fazer sexo com uma menor, em 1977, num processo que, até hoje, não permite que ele volte para os Estados Unidos. Na biografia encontramos detalhes e relatos sobre as filmagens de Rosemary’s Baby, uma de suas maiores obras.
Nascido em Paris, de pais poloneses, Polanski chegou à Polônia dois meses antes de começar a Segunda Guerra Mundial, onde iniciou sua carreira (destaque para A Faca na Água). Naquela época não empolgou os críticos, indo então para a Inglaterra, onde se tornou ícone nos anos 60. Nesta fase, arrebatou com Repulsa ao Sexo, com Catherine Deneuve, de 1965. Depois foi para os Estados Unidos, conquistando Hollywood, com a explosão de O Bebê de Rosemary, de onde saiu fugido, em 1977, após a acusação de estupro. Está na ativa até hoje, destacando-se O Pianista (2002), O Escritor Fantasma (2010) e, recentemente, Carnage.
Trabalhou também como ator, em filmes seus, como os ótimos A Dança dos Vampiros e Chinatown.
Baseado no excelente livro de Ira Levin, de 1967, aqui no Brasil intitulado A Semente do Diabo, Rosemary’s Baby não é considerado um filme de terror, por alguns aficionados do gênero, uma vez que não há qualquer imagem particularmente aterrorizante no mesmo. Mas, sem dúvida, trata-se de um filme de terror psicológico, muito bem articulado. cujo tema é a vinda do anti-Cristo para a Terra, mais tarde também explorada por outros excelentes filmes do gênero, dos anos 70, como O Exorcista e A Profecia.

Ruth Gordon

Assimilando o aspecto gótico do livro, o roteiro do próprio Polanski é absolutamente fiel ao mesmo, com pequenos detalhes que serão percebidos por quem leu o livro e viu o filme. Por meio de um clima de magnífico suspense, o diretor utiliza o medo do desconhecido para mostrar a devastação de uma família americana pequeno- burguesa.
Rosemary, magnificamente interpretada pela jovem Mia Farrow (casada com Frank Sinatra na época, antes da fase Woody Allen) e seu marido Guy, vivido pelo ótimo ator e diretor John Cassavetes, se mudam para um antigo prédio de Nova York (o edifício Dakota, assustador, onde morou John Lennon), iniciando uma amizade com um casal de idosos vizinho, também lindamente interpretados por Ruth Gordon (Oscar de melhor atriz coadjuvante) e Sidney Blackmer. O casal jovem não desconfia que os novos amigos são mentores de uma seita demoníaca, interessados na vinda do anti-Cristo para a Terra. O primoroso suspense aumenta, quando Rosemary, grávida, descobre que seu marido, em troca de sucesso na carreira de ator, aderiu àquela bruxaria toda. Mais, não vou revelar, para não estragar o prazer daqueles que ainda não viram o filme. Indicado ao Oscar de roteiro adapatado, perdendo para O Leão No Inverno, apresenta uma instigante trilha sonora.

John Cassavettes e Mia Farrow

Altamente perturbador, conseguindo até hoje prender e arrepiar o espectador, teve deu DVD recentemente relançado pela Paramount. Terror, sim. E de primeira!

GERSON STEVES ACRESCENTA:
Com uma rápida pesquisa em sites de busca, o leitor poderá encontrar inúmeras referências fotográficas, sonoras e fílmicas a este que já é um clássico do terror psicológico – sem sustinhos fáceis ou macabrices de almanaque. Recomendo que procure por Rosemary’s Baby Theme (cujo real nome é Lullaby) e ouça o quase desconcertante tema da trama, em que a própria Mia Farrow faz o vocal que vai em sentido oposto aos acontecimentos na tela numa canção de ninar bastante misteriosa.
Polanski é um mestre quando, mais do que apresentar, sugere situações de missas negras e rituais em que uma escalada macabra se revela em rápidos flashes pelo olhar da protagonista sempre muito frágil, drogada e levada contra sua vontade a gerar o filho do demônio.  Observe ainda a impressionante mudança física pela qual Farrow passa ao longo da história.
Há ainda dois filmes de Polanski que devem ser notados. O primeiro deles é Tess, com a ainda jovem Nastassia Kinski (no esplendor de seus 18 anos) e Lua de Fel (1992), com Hugh Grant e Kristin Scott Thomas, em que faz uma crítica ao desejo desenfreado que nunca encontra satisfação completa.

Sidney Blackmer e Mia Farrow

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meus caros amigos (amici miei)

GERSON STEVES DIZ:
Se cruzar a fronteira dos cinqüenta já é complicado nos dias de hoje, em que eles são os novos 40, imagine na década de 70. Era sinônimo de absoluta falta de perspectivas profissionais, financeiras e até sentimentais. E é justamente sobre um grupo de amigos, nessa faixa etária tão significativa, que trata o filme Meus Caros Amigos (Amici Miei), de Mario Monicelli, rodado em 1975. Lembro que o vi na época e me diverti muito com as trapalhadas e pequenas travessuras de um grupo de senhorzinhos de meia idade. Hoje, distante mais de 30 anos no tempo, e também vivendo a curva dos 50, o filme me pareceu mais melancólico e (pasme) até filosófico do que na época.
Recheado de situações hilárias, é narrado em primeira pessoa pelo jornalista Perozzi, vivido por Philippe Noiret, num encadeado de flash-backs não lineares em que são contadas as aventuras e estripulias de cinco amigos inseparáveis– os outros são interpretados por Ugo Tognazzi, Duilio Del Prete, Gastone Moschin e Adolfo Celi. No filme, cada um tem seu grande momento, mas ficam a cargo de Noiret e Tognazzi as cenas mais antológicas. Graças ao grande talento cômico e dramático de ambos, seus personagens ganham em profundidade e dimensão – por vezes trágica.
Logo na primeira cena, vemos um jornalista que dorme mal, freqüenta a noite entre bêbados e prostitutas, e fuma sistematicamente – quase a crônica de uma morte anunciada. É Noiret – imortalizado no personagem Alfredo de Cinema Paradiso – que vai apresentar os outros personagens e contar como todos se conheceram e se envolveram na “ciganagem”, forma com que chamavam a prática de sair sem destino por algumas horas ou até dias, envolvidos em pegadinhas. A voz do jornalista conduzirá as desventuras amorosas e sexuais dos amigos e irá revelar até os pequenos atos de nobreza cotidiana que poderiam escapar aos olhares menos sensíveis.
Tognazzi – conhecido do público brasileiro pela trilogia Gaiola das Loucas – interpreta um conde falido que se divide entre uma vida miserável com a mulher e a filha e um ardente romance com uma jovem 30 anos mais nova, de quem se torna praticamente escravo sexual. No estilo inconfundível do malandro romano que fora playboy nos anos 50, ele possui uma técnica toda especial de enrolar as pessoas misturando frases e palavras absolutamente sem sentido num contexto inesperado e ditas com tamanha verossimilhança que ninguém é capaz de contrariá-lo.
Mario Monicelli, como diretor, não cede à tentação de fazer uma comédia fácil tipicamente italiana daquele período. Sua luz é dramática, os enquadramentos são uma brincadeira com vários gêneros cinematográficos (do neo-realismo aos filmes de gângsters americanos) e a narrativa não é nem um pouco linear. Além disso, a trilha sonora constitui um espetáculo à parte, apresentando sonoridades que lembram toda uma cinematografia italiana, com direito a ecos de Nino Rota.
É um filme que não poupa a crítica às instituições mais caras à Itália conservadora da época e tampouco às transformações que aquela sociedade via acontecerem ao seu redor. Não escapam a Igreja, o casamento, a família, a propriedade, o trabalho, a polícia, a máfia, a liberação sexual feminina, as drogas, a velhice e a morte. Tudo vira motivo de piada. Tudo é pretexto para um olhar cínico e malandramente rejuvenescedor.
O filme foi um sucesso tão grande que gerou duas continuações não previstas quando da feitura de seu original; as três foram rodadas entre 75 e 85, todas com direção de Monicelli, mas na última sem a presença de Noiret (por questões de roteiro da primeira versão). Ainda assim, todas valem muito a pena. Aproveite, ainda, para se deleitar com a participação de Adolfo Celi – que foi casado com Tônia Carrero e exerceu forte influência sobre o teatro brasileiro dos anos 40 e 50 por sua atuação no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Pegue os três e veja em estilo maratona!

CLAUDIO CURI ACRESCENTA:
Mário Monicelli é considerado por muitos o rei da comédia, ou seja o mais engraçado dos realizadores italianos, mas sua visão é mais engajada do que parece ser. Em suas comédias retrata seus personagens de uma forma muito humana, sempre com grande sensibilidade. Iniciou sua carreira em 1935, quando já era crítico de cinema e, mais tarde (a partir de 1949), formou com Steno, outro diretor, uma grande dupla de roteiristas e, depois, diretores, especializados em comédias. Trabalharam muito com o grande ator italiano Totó, em uma série de filmes hilariantes.
A partir de 1954, Monicelli, separando-se de Steno, continuou sua carreira sozinho, sendo o realizador de filmes memoráveis, tais como Pais e Filhos, Os Eternos Desconhecidos. Os Companheiros, Casanova 70, O Incrível Exército de Brancaleone (talvez o seu maior sucesso), além deste delicioso Meus Caros Amigos, de 1975, que teve uma sequência em 1982, chamada Quinteto Irreverente (Amici Miei Atto II).
Além de Totó, Monicelli trabalhou com os maiores atores italianos de todos os tempos, tais como Anna Magnani, Vittorio Gassman, Marcello Manstroianni, Silvana Mangano, Gina Lollobrigida e tantos outros.
Em 1992 foi o autor de outra comédia deliciosa, sobre a família, chamada Parente é Serpente (Parenti Serpenti), em que mostra filhos que tentam se livrar de seus pais para não terem que cuidar dos mesmos na velhice. Um enorme sucesso.
Monicelli inspirou diretores de gerações seguintes, como Ettore Scola, cujo O Baile já teve aqui a sua resenha. Teve, também, vários filmes indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, tendo ganhado o Leão de Ouro em Veneza, pela carreira e pelo filme A Grande Guerra, em 1991. Faleceu em 2010, em Roma, aos 95 anos.

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amantes (love streams)

CLAUDIO CURI DIZ:
Mais um caso (triplo) de títulos nacionais idênticos, em detrimento (em dois casos) dos belos e poéticos títulos originais. Em 1958, tivemos o ótimo filme de Louis Malle, Les Amants (este traduzido corretamente por Os Amantes), com Jeanne Moreau e Jean-Marc Bory, famoso por uma ousada (para a época) cena de sexo oral entre os protagonistas.
Em 2009, o também muito bom Amantes (Two Lovers), que ficaria melhor com uma tradução mais literal: Dois Amores. Dirigido por James Gray teve, no triângulo amoroso, boas interpretações de Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw, num filme sensível e delicado.
O filme Amantes, que tratamos agora, tem um título original muito mais bonito, que deveria ser respeitado: Love StreamsCorrentes de Amor, pois  o apelativo título nacional dá uma errônea interpretação sobre o amor entre dois irmãos, que nada tem de incestuoso. Love Streams, de 1984, é dirigido pelo excelente ator e diretor americano John Cassavetes e interpretado por ele mesmo e sua esposa, a magnífica Gena Rowlands. Conta a história do relacionamento de dois irmãos (que se adoravam) com sérios distúrbios emocionais. Ele, um escritor alcoólatra, adicto por sexo, com sua casa repleta de mulheres, e ela sua irmã divorciada (e rica) que, por sua perturbação e não aceitação do divórcio, acabara de perder a guarda da filha adolescente.
Cassavetes, também autor do roteiro, é considerado o pai do cinema independente americano. Excelente ator, que interpretou papéis complexos, como o marido de Mia Farrow, em O Bebê de Rosemary, de Polanski, como diretor construiu uma obra bastante pessoal, com estilo próprio e quase artesanal de trabalho, criando história em torno de suas improvisações, com orçamento reduzido e trabalhando quase sempre com a mesma equipe técnica e atores, geralmente seus amigos. Mas também teve a sorte de contar, quase sempre com o apoio e trabalho, em seus filmes, de sua esposa, a extraordinária atriz Gena Rowlands.
Suas obras viraram cults e incensadas pelos cinéfilos, como Shadows, Faces, Husbands,. A Woman Under Influence, Gloria (que deu uma indicação ao Oscar para Gena) e A Child is Waiting (Minha Esperança é Você), penúltimo filme de Judy Garland, que também contou com a participação de sua esposa, ambas magníficas.
John também é pai do ator e diretor Nick Cassavetes (Loucos de Amor) e gostava de trabalhar, quase sempre, com Peter Falk, Ben Gazzara e Seymour Cassel.
Faleceu em 1989, aos 59 anos, principlamente por problemas de alcoolismo, como seu personagem neste Love Streams, tendo seu estilo servido de grande influência para as gerações seguintes, como os jovens cineastas do final do século XX.
No presente filme, encontramos uma sequência antológica, protagonizada por Rowlands: em uma estação de trem em Paris, ela com cerca de 30 malas tenta transportá-las sozinha, do depósito onde se encontravam para a plataforma de embarque. E seus pedidos de ajuda aos funcionários da estação, sem falar o idioma francês. Um primor. Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim de 1984, Love Streams é um filme a conferir, sem dúvida. 

GERSON STEVES ACRESCENTA:
Gena Rowlands é sempre garantia de uma interpretação sutil e envolvente. Seus olhares, normalmente cheios de significado, preenchem a tela com as intenções da direção e do roteiro, dispensando, muitas vezes, a palavra. Esta bela mulher, oriunda da alta burguesia norte-americana, começou sua carreira no teatro vivendo no palco o papel que seria posteriormente de Marilyn Monroe no cinema, no clássico The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado).
É sempre muito bom vê-la atuar e recomendo um clássico de Woody Allen da sua fase com Mia Farrow, A Outra (Another Woman, 1988) – uma fita bastante intimista em que Rowlands vive uma escritora que, em decorrência da busca por privacidade, acaba alugando um escritório em que divide parede com o consultório de um psiquiatra. Ali, ela passa as tardes ouvindo as sessões de terapia de uma mulher grávida (Farrow) bastante perturbada, enquanto tenta salvar sua própria vida pessoal.
Apenas para constar: se você tiver curiosidade em ver a refilmagem de Gloria com Sharon Stone, resista à tentação e veja o original!

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o baile

GERSON STEVES DIZ:
Em 1981, o ator e diretor francês Jean-Claude Penchenat criava, coletivamente com os atores do seu Theâtre Du Campagnol, uma obra teatral que coadunava com ideias nascidas nos movimentos de Teatro Dança dos anos 70 e aprofundadas nos anos 80. Essa criação coletiva chamou-se Le Bal, O Baile.

Foi tamanho o sucesso e a repercussão do espetáculo que o cineasta italiano Ettore Scola (na época, passando dos 50 anos de idade) decidiu transpor a obra para a grande tela, com o mesmo elenco. Àquela altura, Scola já havia dirigido alguns de seus maiores sucessos que se tornaram jóias da cinematografia italiana: Feios, Sujos e Malvados, Um Dia Muito Especial, Nós Que Nos Amávamos Tanto e Casanova e a Revolução.

Scola é um diretor de atores, preocupado com as relações humanas e de como as pessoas interagem com o meio. E mais: como o indivíduo reage à realidade política que o cerca. Por isso, a ideia do Thêatre Du Campagnol caiu como uma luva para a estética do diretor.

O Baile é uma experiência cinematográfica instigante, artisticamente estimulante e irretocável do ponto-de-vista estético. O filme passa em revista 50 anos de uma vida, não a vida de uma pessoa, mas de um salão de baile que poderia estar em qualquer canto da França. Sem palavras, apenas por meio de gestos e olhares, vidas se entrelaçam na busca de um pouco de companhia. A profunda solidão das personagens se desenha década a década, indicando que mudam as músicas, os figurinos e as pessoas, mas os sonhos e desejos do homem continuam sempre sendo os mesmos.
A cada novo bloco, desde os anos 30 até os anos 80, o salão se transforma: pequena orquestra dá lugar a uma jukebox, os ideais de liberdade e igualdade são afrontados pelo nazismo ou pela xenofobia contra a imigração argelina, as ingênuas meninas de família saem de cena para a chegada das pin-ups com influência do rock’n’roll.
Felizmente, Scola abandona uma linguagem realista ou naturalista em favor de uma interpretação maneirista, feita de composições ora sutis, ora quase caricatas. Para os quase 25 atores que se revezam década a década, teatralidade é a palavra de ordem – um prato cheio, por exemplo, para fãs de Pina Bausch. É um desfilar de rituais de sedução, jogos de poder machistas, tipos masculinos e femininos dos mais variados.
Bem ao gosto das produções de teatro-dança dos anos 80, a trilha sonora é um apanhado delicioso de músicas de todos os tempos e lugares: mambos, rumbas, jazz, cha-cha-chá, rock, fox e até um samba de Carvalhinho e Olavo Drummond (Madureira Chorou – com uma tradução em francês deliciosa: Si tu vas à Rio N’oublie pas de monter là-haut. Dans un petit village. Caché sous les fleurs sauvages. Sur le versant d’un côteau.”)
Se você matou as aulas de História do Século XX, talvez sinta falta de subsídios para curtir o filme do ponto-de-vista dos acontecimentos externos ao salão de baile. Mesmo assim, relaxe e aproveite deixando que a obra chegue até você. É um filme para ver e ouvir, com belos planos-sequência e sutilezas que pedem, às vezes, pause e rewind.

CLÁUDIO CURI ACRESCENTA:
Ettore Scola é considerado pela crítica o maior diretor do cinema italiano dos anos 70 e 80, numa geração posterior a Monicelli, Fellini, Dino Risi, Visconti, Vittorio de Sica,  Comencini e tantos outros grandes nomes de seus conterrâneos.
Filiado ao Partido Comunista italiano, começou, com louvor, como roteirista, apresentando sempre em seus filmes, temáticas sociais e políticas.

À maneira do americano Robert Altman, nunca fazendo concessões comerciais, tornou-se, também, um mestre nos chamados filmes de grupo. Com histórias que se misturam ou situando ações num único ambiente, como Cerimônia de Casamento (Altman, 1978) ou O Jantar (Scola, 1999), este último com um de seus atores preferidos (Vittorio Gassman).

Scola estreou na direção em 1964 com Fala-se de Mulheres, sendo O Baile considerado por muitos sua obra-prima. Durante a rodagem do mesmo, sofreu um infarto que quase pôs fim à sua carreira, recuperando-se e voltando a filmar no ano seguinte (Maccheroni, 1985, com Mastroianni e Jack Lemmon). Outros consideram sua obra-prima o filme Um Dia Muito Especial, de 1977, com outro de seus atores favoritos (Mastroianni) e Sophia Loren.

Mas o meu preferido é uma deliciosa comédia dramática chamada Ciúme à Italiana (Dramma della Gelosia, 1970). Assisti a este filme no antigo cine Astor, em São Paulo, no Conjunto Nacional, onde hoje funciona a Livraria Cultura, quando me deleitei com as magníficas interpretações de Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini.

O Baile
foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 1983, perdendo para Fanny & Alexander, de Ingmar Bergman. Foi indicado, também, ao Urso de Ouro (Berlim, 1984) e premiando Scola com o Urso de Prata. Na França (Cesar, 1984), levou os prêmios de direção, melhor filme francês e música. Na Itália faturou o David di Donatello de 1984 como melhor filme (junto com E La Nave Va), melhor diretor, edição e música.


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a última tentação de cristo

CLÁUDIO CURI DIZ:
Martin Scorsese, um dos maiores cineastas americanos de todos os tempos, quem diria, queria estudar para padre. Mas, para nosso gáudio, preferiu o cinema, indo para a New York University Film School, resultando num imenso talento, com uma magnífica filmografia. É considerado o grande injustiçado pela Academia, apesar de 6 indicações ao Oscar, só levou o prêmio em 2007 pelo Os Infiltrados.
Muitos de seus filmes demonstram a sua devoção católica. Retratam, também, a América dos miseráveis, dos marginas, das minorias (os italianos). Também a América urbana e noturna, especialmente New York, onde nasceu.
E é excelente cineasta  em qualquer gênero, seja no policial (Sexy e Marginal), no musical (New York, New York), em retratos de perdedores (Taxi Driver, Touro Indomável), filmes de época (A Época da Inocência), terror (O Cabo do Medo, A Ilha do Medo), gangsteres e submundo da Máfia (Os Bons Companheiros, Cassino, Os Infiltrados) e temática religiosa (A Última Tentação de Cristo, que ora comentamos).
Scorsese consagrou vários atores, como Robert De Niro, Jodie Foster, Harvey Keitel e Leonardo Di Caprio, seu atual ator preferido. Foi casado com a atriz Isabella Rossellini e é excelente crítico de cinema.
O polêmico A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, de 1988), absurdamente perseguido pela Igreja Católica (sobretudo na França), que o considerava herético, é baseado no livro de Niko Kazantzakis e foi adaptado para a tela por Paul Schrader, grande diretor e roteirista. Schrader já havia trabalhado com Scorsese em vários filmes, como Taxi Driver e Touro Indomável e se consagrou ótimo diretor, em filmes como A Marca da Pantera, Mishima, Gigolô Americano e Uma Estranha Passagem em Veneza (filme muito interessante).
Tentação conta a história de Jesus Cristo como nunca foi mostrada antes: um Jesus humano, atormendado, colaboracionista e questionador de sua missão divina.

O filme se divide em duas partes. Na primeira metade, narra a vida de Cristo até sua crucificação. Jesus (Willem Dafoe) é um marceneiro judeu, responsável pela feitura das cruzes nas quais os romanos crucificavam os seus opositores. Era freqüentemente questionado por um de seus discípulos Judas (Harvey Keitel, numa interpretação muito criticada, que lhe valeu uma indicação ao Framboesa de Ouro), grande amigo e seu braço direito. Nesta fase, mostra a insegurança de Jesus e seu questionamento entre ser o Messias predestinado por Deus e a vontade de ser um homem comum, se casando, criando família e envelhecendo como qualquer ser humano.
Na segunda metade do filme, vemos Jesus na cruz, quando é tentado por um anjo a se livrar de seu sacrifício, assumindo a vida de um homem comum, casando-se com Maria Madalena, tendo filhos envelhecendo e morrendo como tal. A sequência final, que não vamos revelar aqui, é brilhante e inesperada, além de belíssima. Fora  Harvey Keitel, para mim aqui um ótimo ator, como sempre, o filme conta com as participações de Barbara Hershey (antes de suas plásticas deformadoras, como  Maria Madalena), do popstar David Bowie (como Pôncio Pilatos) e Harry Dean Stanton (como o apóstolo Paulo).
A trilha sonora, espetacular, é de autoria de Peter Gabriel, que contou com músicos do Sudão, Paquistão e percussionistas brasileiros, resultando numa instigante mistura de música oriental com elementos pop, indicada ao Globo de Ouro da categoria. Barbara Hershey, igualmente, foi indicada ao mesmo prêmio, como coadjuvante. Um filme belíssimo, que poderia ter tido várias indicações ao Oscar de 1988, além da de Scorsese, e, para mim, o mais injustiçado do ano. A ver, sem dúvida!

GERSON STEVES ACRESCENTA:
Todos os dias, homens comuns acordam, tomam café, beijam suas esposas e vão para o trabalho. Sem medos, sem sobressaltos, sem dúvidas. Afinal, são homens comuns, com vidas comuns. O que a obra do poeta e novelista grego Nikos Kazantzakis propõe é exatamente o contrário: como seria se o herói dos heróis, o rei dos reis, decidisse viver uma vida ordinária, comum, refugiado entre filhos e galinhas? Seria a maior e mais terrível tentação do Deus-homem.
O autor, nascido ainda no século XIX e morto em 1953, desenha um Cristo tão humano que, no filme de Scorsese, passamos a nos deleitar com a possibilidade alentadora de uma vidinha besta longe das adulações da fé, alheio aos apelos dos fiéis e seguidores fanáticos. Sim, qualquer semelhança com Roque Santeiro não teria sido mera coincidência!
Claro que não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe e, por isso mesmo, a lucidez toma conta do trabalhador alienado pela vidinha vazia e o faz tomar consciência de que a felicidade não existe: não para aqueles que nascem para heróis e revolucionários… O fim de tudo isso? Veja o filme e julgue por si.

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uma rua chamada pecado

GERSON STEVES DIZ:
Quando Blanche Dubois (Vivien Leigh) chega à casa da irmã Stella, é aparentemente mais uma fútil mulher da aristocracia sulista com mais pose do que dinheiro. Em verdade, não passa de uma professora de inglês de hábitos  conservadores, madura, mas muito atraente, e que sabe como usar seus atributos para seduzir homens à sua volta, muitas vezes em troca de alguns favores. Foi esse hábito ligeiramente condenável – agravado por um fortuito caso com um adolescente e o súbito suicídio do marido – que a faz fugir de sua cidade natal e ir ao encontro da irmã, falida e cheia de dívidas.

Ao chegar, depara-se com a vida deplorável que a irmã leva ao lado do grosseirão que escolhera por marido: o descendente de poloneses Stanley Kowalski (Marlon Brando). A tensão sexual entre ambos fica clara desde o primeiro contato e vai ganhar seu ápice nas cenas finais. Blanche é claramente uma mulher perturbada, se poderia dizer bipolar, que parece viver num outro mundo, uma outra realidade. Entretanto, seus modos delicados e sua aparente sofisticação chamam a atenção do tímido e recatado Mitch, amigo de mesa de pôquer de Stanley.

Inúmeras são as qualidades deste filme e os atributos que nos fazem querer vê-lo sucessivas vezes, ou voltar a ele de tempos em tempos. Que mais não seja, pelas estrondosas interpretações – não há um ator sequer que esteja fora do tom ou que não conheça seu papel na trama. Vivien Leigh, que interpretara o papel em Londres, atribui à personagem laivos de diva operística, sua atuação é sempre um ponto além do realismo nu e cru que Brando atribui ao seu Kowalski. Também nua e crua é a direção de arte – criada especialmente para a belíssima fotografia em preto e branco que, por sua vez, é favorecida por uma iluminação angulosa, cheia de recortes e contrastes. Mas não pense que apenas Leigh e Brando são os grandes nomes deste filme, preste atenção na atuação contida e precisa dos dois coadjuvantes centrais: Karl Malden (Mitch) e Kim Hunter (Stella).

Todas são personagens tão fortes e pungentes, representam fragmentos e extratos sociais tão diversos, que a tensão entre elas é inevitável. Uma tensão que ruma para o nada e que, ao fim de tudo, parece não apontar caminhos e soluções. Tanto que a frase emblemática de Blanche (e da peça como um todo) é a clássica “eu sempre dependi da bondade de estranhos”. Veja este filme e, depois, dê uma espiada em Tudo Sobre Minha Mãe, de Almodóvar.

Uma Rua Chamada Pecado é mais um desses casos de títulos curiosos (e oportunistas) em português, afinal a peça de Tennessee Williams chama-se A Streetcar Named Desire e em teatro sempre foi chamada de Um Bonde Chamado Desejo – isso, devido ao seu primeiro tradutor no Brasil, Carlos Lage, que decidiu pela tradução meio gratuita e depois condenada pela crítica.

Mas nada disso importa, o texto é corajoso e o filme foi vítima de censura já depois de montado e às vésperas de seu lançamento, quando o diretor Elia Kazan foi surpreendido pelo corte deliberado de mais de três minutos de cenas fundamentais para a trama – mais uma vez por conta da moral e dos bons costumes. Afinal, Tennessee e Kazan sempre inseriam em suas obras fortes referências ao universo homossexual.  Felizmente, no ano em que o filme completa 60 anos de vida (é de 1951) essas cenas foram reintegradas ao filme em sua versão remasterizada e disponível em DVD

 CLAUDIO CURI ACRESCENTA:
A famosa e temida crítica de cinema americana, Pauline Kael (que escreveu para a revista The New Yorker de 1968 a 1991 e faleceu em 2001) publicou, por ocasião do lançamento do filme, a seguinte observação sobre o trabalho de Viven Leigh : “A mais perfeita interpretação de uma atriz para o cinema, de todos os tempos”.

Revendo Bonde, podemos constatar que sua afirmação permanece atual até os dias de hoje. A inglesa Vivien realmente está sublime, sendo um deleite inenarrável conferir o seu trabalho – outro grande momento seu, imperdível para os cinéfilos, está em seu último filme, A Nau dos Insensatos (1965), com direção de Stanley Kramer; sem falar em E O Ventou Levou…, que lhe rendeu seu primeiro Oscar. Leigh faleceu jovem, em 1967, aos 54 anos, vítima de tuberculose.Marlon Brando também arrebata com seu Stanley Kowalski, papel que havia criado na Broadway, anos antes, dirigido também por Elia Kazan, o diretor do filme.

Indicado a 11 Oscar, no ano de 1951, faturou quatro: Atriz (Vivien), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Ator Coadjuvante (Karl Malden) e Direção de Arte (Richard Day), realmente, esplendorosa. Perdeu o de melhor filme para Sinfonia de Paris, o de ator para Humphrey Bogart, em The African Queen,  e o de diretor para Um Lugar ao Sol, o também magnifico filme de George Stevens.

Dizem (mas não provam) que Tennesse Williams, o autor da peça, teria concebido a personagem de Blanche Dubois para ser interpretado por um homem, o que não foi possível devido ao moralismo americano que imperava nos anos 40/50.


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a rosa tatuada

CLAUDIO CURI DIZ:
Por este filme, a extraordinária atriz Anna Magnani, uma das duas grandes damas do cinema italiano (a outra é Silvana Mangano), ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor atriz do ano de 1955. Na premiação do Oscar derrotou Susan Hayward (Eu Chorarei Amanhã), Katharine Hepburn (Quando o Coração Floresce), Jennifer Jones (Suplício de Uma Saudade) e Eleanor Parker (Melodia Interrompida), todas grandes concorrentes.
O filme, produzido pelo famoso Hall Wallis, da Paramount, foi dirigido por Daniel Mann, americano ex-músico e diretor de teatro que se notabilizou nos anos 50 principalmente por ter dirigido, além de Anna, duas outras grandes atrizes que também ganharam o Oscar: Shirley Booth, por A Cruz da Minha Vida e Elizabeth Taylor, por Disque Butterfield 8. Ainda alcançou grande sucesso, nesta mesma década, com Eu Chorarei Amanhã e A Casa de Chá do Luar de Agosto, mas sua carreira entrou em declínio, a partir dos anos 60, tendo falecido em 1991.
A Rosa Tatuada é um verdadeiro tour de force de interpretação da grande Anna Magnani. Baseado na peça homônima de Tennesse Williams, conta a história de uma viúva, Serafina Della Rosa (Anna), que vivia a cultuar a memória de seu marido morto, um caminhoneiro que lhe fora infiel (ela sabia, mas não aceitava). Infeliz e ressentida, vivendo às turras com sua filha adolescente Rosa, acaba por  conhecer outro caminhoneiro, Álvaro Mangiacavallo, um bufão muito parecido com seu marido e que a faz, novamente, despertar para a vida e para o amor.
Rosa, a filha de Serafina foi interpretada pela estreante atriz italiana Marisa Pavan, irmã gêmea de Pier Angeli (que fez sucesso no cinema americano dos anos 50). A carreira de Marisa (apesar da indicação ao Oscar, como coadjuvante para este filme), não teve maior brilho. Foi casada com o ator francês Jean-Pierre Aumont, até a morte dele em 2001. Sua irmã Pier foi o grande amor de James Dean, com quem namorou, tendo se casado com o cantor Vic Damone. Faleceu jovem, aos 39 anos, por overdose de barbitúricos.


Alvaro Mangiacavallo foi vivido pelo grande ator americano Burt Lancaster, que estrelou os filmes de Visconti O Leopardo e Violência e Paixão, além de ter tido uma brilhante carreira no cinema americano. Está perfeito em A Rosa Tatuada. Faleceu em 1994. Mas o grande trunfo do filme é, sem dúvida, a presença de Anna Magnani, falecida em 1973.
O curioso é que Tennesse Williams escreveu a peça para ela interpretar na Broadway, tendo ela rejeitado, em virtude de suas dificuldades com o idioma inglês. Felizmente pode aprimorá-lo, nos brindando com esta magnífica interpretação, Estrelou, também, no cinema americano, A Fúria da Carne, de George Cukor e Vidas em Fuga, de Siney Lumet.
Além dos prêmios de atriz, fotografia e direção de arte para filme em branco e preto, no Oscar de 1955, recebeu indicações para melhor filme, atriz coadjuvante, figurino, montagem e trilha sonora. No Brasil, Serafina Della Rosa foi interpretada, em São Paulo e no Rio de Janeiro pela nossa querida Maria Della Costa.

GERSON STEVES ACRESCENTA:
Confesso que, ao rever A Rosa Tatuada, fui tomado de assalto por certo sentimento de decepção. O tom melodramático fica um pouco excessivo – talvez pela tentativa mal-sucedida em tentar reproduzir os clássicos filmes em preto e branco do neo-realismo italiano. O resultado fica parecendo meio ‘B’.
Magnani é mesmo o grande trunfo da fita. Sua capacidade de retratar a típica dona-de-casa católica dos anos 50, na busca por seu direito ao prazer é mesmo pungente. Tennessee Williams faz de seu personagem exatamente a contrapartida de Blanche Dubois em Bonde Chamado Desejo (no Brasil, Uma Rua Chamada Pecado). Um contraponto que só é possível graças às origens latinas da protagonista. Veja e tires suas próprias conclusões.

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ama-me com ternura

GERSON STEVES DIZ:
O ano era 1956 e aquele belo rapaz branco de voz negra já ocupava o trono de Rei do Rock e fazia delirarem as moçoilas de família com seu tufão nos quadris. Em seu primeiro filme – e o maior sucesso de sua carreira com mais de 30 filmes – Elvis Presley não é o protagonista, mas sem dúvida nenhuma é o mocinho. De gênero bastante híbrido – se poderia dizer tratar-se de um western romântico e musical –, Love Me Tender leva o nome de uma das quatro canções que Elvis canta no filme.
Numa bela fotografia em preto e branco, tudo começa no dia em que o exército Confederado perde a Guerra Civil Americana para os Ianques e de como esse fato histórico impacta na vida dos Irmãos Reno (aliás, esse seria o nome do filme, não fosse o grande sucesso da canção, mesmo antes do lançamento cinematográfico). Após receber a notícia de que o irmão mais velho, Vance (Richard Egan), havia morrido na guerra, o jovem fazendeiro do Clint (Presley) casa-se com a bela amada de seu irmão supostamente morto. A mocinha é a loura Debra Paget fazendo a linha heroína pin-up ardente e lânguida. Eis que o destino lhes pregará uma de suas peças e a repentina volta de Vance acende a chama da rivalidade fraterna. Some-se a isso o fato de que os irmãos que lutavam na Guerra escondem uma verdadeira fortuna roubada do exército ianque; dinheiro que será também um motivador de muitos tiros e socos, ao bom estilo western americano.

É muito interessante a maneira como a direção de Robert D. Webb constrói nos minutos iniciais uma dialética entre bem e mal, mocinhos e bandidos – fazendo com que esses mudem de lado diante dos nossos olhos e fortalecendo a eterna discussão de que numa guerra todos são perdedores, mesmo os vencidos. E num cenário desolador, no qual o orgulhoso Sul dos Estados Unidos procurava se reconstruir, curiosamente não vemos a presença de um ator negro sequer – mesmo como figurante, o que só vem reforçar o estado de quase apartheid que a arte americana vivia naqueles anos.
Love Me Tender é um filme que vale a pena ser visto por algumas razões: a canção-título é muito bonita, Elvis tem uma boa atuação (bastante segura para um estreante), o roteiro é interessante e até certo ponto surpreendente num final que contraria a lógica habitual dos filmes românticos. Mas, sobretudo, pela dança absolutamente anacrônica de Elvis Presley que faria corar os peregrinos e pais da pátria.

CLAUDIO CURI ACRESCENTA:
Mais um belo filme (este de estréia) do grande cantor Elvis Presley, que estrelou 32 filmes, todos de grande sucesso. Conta-se que, no primeiro dia de filmagens de Love Me Tender, Elvis chegou ao estúdio com todas as falas do texto decoradas, não só as dele, como também as de todos os seus colegas de elenco, em sua inexperiência de estreante.

Apaixonou-se, também, durante as filmagens, por sua co-star, Debra Paget, chegando, ao término das mesmas, a pedi-la em casamento, ao que ela recusou. Debra, uma bonita atriz, teve, em sua carreira de cerca de trinta filmes, participações em títulos pouco expressivos, na maioria medíocres, com exceção deste Ama-me Com Ternura e Os Dez Mandamentos, numa trajetória que durou de 1948 a 1963.Já Elvis teve boas participações dramáticas, como em Prisioneiro do Rock (1957) e Coração Rebelde (1961), este o melhor de todos.

Notável, também, em Love Me Tender, a presença de uma das maiores atrizes coadjuvantes de Hollywood, Mildred Dunnock, vivendo a mãe dos Irmãos Reno. Mildred trabalhou com grandes diretores, como Elia Kazan, em Baby Doll, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Teve, igualmente, uma presença extraordinária como a mãe de Elizabeth Taylor em Disque Butterfield 8. Ama-me Com Ternura é certamente um filme a conferir, especialmente por aqueles que são fãs de Elvis e por toda uma geração mais jovem que não viu seus filmes na Sessão da Tarde.

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sylvia – paixão além de palavras

CLÁUDIO CURI DIZ:
Hoje em dia, existem muitos filmes homônimos, quer nos títulos originais, quer nos nacionais, conforme já vimos por aqui. O primeiro Sylvia foi uma produção de 1965, estrelada por Caroll Baker e George Maharis, e dirigida por Gordon Douglas – americano que faleceu em 1993 e teve uma longa carreira no cinema, iniciada em 1936 (também é dele outro filme com Caroll Baker, Harlow, a Venus Platinada, que conta a vida de Jean Harlow, uma precursora de Marilyn Monroe, falecida muito jovem, em 1937). Trata-se da história de um homem que, após escolher para esposa uma jovem e misteriosa poeta, decide investigá-la. Caroll Baker viveu, em seu segundo filme, a filha de Elizabeth Taylor em Assim Caminha a Humanidade e ganhou notoriedade em seu filme seguinte, Baby Doll (Elia Kazan).

Coincidentemente, o nosso Sylvia, acompanhado pelo ridículo subtítulo nacional Paixão Além de Palavras, conta a história de uma das mais famosas poetas da literatura americana, Sylvia Plath (vivida por Gwineth Paltrow). Nascida em Boston no ano 1932, durante a Grande Depressão, Sylvia, ainda muito jovem, tentou o suicídio na casa de sua mãe. Depois, viaja à Inglaterra para estudar em Cambridge onde conhece o jovem poeta Ted Hughes, por quem se apaixona e com que se casa (tendo dois filhos), vivendo um longo e tumultuado romance, até sua morte por suicídio, aos 30 anos.

O enredo abrange esse período, em que o ciúme e a depressão da poeta a conduzem a um forte desequilíbrio emocional, desembocando numa cena emocionante com final trágico. Ted amava Sylvia, mas lhe era infiel, e o pivô da separação foi o romance dele com a alemã Assia Wewill, com que teve uma filha.

O que não está no filme é a relação também tumultuada entre Ted e Assia, que resultou no sucídio dela, em l969. Após matar a filha Shura, fruto da relação de ambos, ela se matou de forma idêntica à de Sylvia. Plath escreveu um único romance, semi-autobiográfico chamado A Redoma de Vidro e teve inúmeros trabalhos, como poeta, em publicações memoráveis.

Nunca fui apaixonado pelo trabalho de Gwyneth Paltrow, uma atriz bonita e competente, talvez por ter tirado o Oscar de 1998 das mãos da nossa Fernada Montenegro (Central do Brasil), graças à sua interpretação sem grandes arroubos, em Shakespeare Apaixonado. Mas, a partir de sua visceral e comovente criação de Sylvia, virei seu fã de carteirinha. Outro trabalho marcante de Paltrow foi sua personagem em O Talentoso Ripley, também de 1998.

Em Sylvia, Ted Hughes (falecido em 1998) é vivido com extrema competência por Daniel Craig, ator inglês, que chegou à fama como nosso atual James Bond. Outra curiosidade é a participação, no filme, da boa atriz Blythe Danner, como a mãe de Sylvia, também mãe de Gwyneth na vida real.A direção é de Christine Jeffs, da Nova Zelândia, que também dirigiu Trabalho Sujo, Chuva de Verão, e Sunshine  Cleaning (filme independente americano, com Amy Adams e Emily Blunt). Pena que Gwyneth, ainda não tendo completado 40 anos, já tenha mudado o rosto, por decorrência de cirurgias plásticas. Nada como a beleza natural. Principalmente por ela, Sylvia é um filme emocionante a se ver, ou rever, sem dúvida.

GERSON STEVES ACRESCENTA:
Impossível ler sobre Sylvia sem lembrar de outra escritora de língua inglesa, a britânica Virginia Woolf, que também cometeu suicídio afogando-se no Rio Ouse, o que pode ser visto no belo filme As Horas (2002).

De certo modo, Woolf serviu de inspiração para Sylvia Plath, a ponto dela escrever em um de seus diários: “pego o bendito diário de Virginia Woolf que comprei junto com vários outros livros dela no sábado, com Ted. E ela supera a depressão causada pela recusa da Harper’s (imagine! — eu mal posso acreditar que os Grandes Nomes foram rejeitados, também!) limpando a cozinha. Preparando haddock e linguiça. Bendita seja. Sinto minha vida ligada à dela, de certo modo. Eu a amo — desde a leitura de Mrs. Dalloway para o sr. Crockett — e ainda posso ouvir a voz de Elizabeth Drew a me causar um arrepio na espinha (…) Seu suicídio, senti que o reproduzi no negro verão de 1953. Só não consegui me afogar. Calculo que sempre serei muito sensível, ligeiramente paranóica.”

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rosalie vai às compras

GERSON STEVES DIZ:
Foi Bagdá Café (sucesso ‘cult’ de 1987) que colocou os nomes do diretor Percy Adlon e da atriz Marianne Sägebrecht no cenário internacional. Alemão, Adlon é um diretor que vem do teatro e teve longa carreira dedicada aos documentários, especialmente de arte. Por sua vez, Marianne vem do Kabarett (o que é muito diferente do que entendemos como Cabaré por aqui) e manteve uma companhia de teatro chamada Opera Curiosa. Juntos, fizeram também o delicado Estação Doçura (1985). Rosalie Vai às Compras (Rosalie Goes Shopping, 1989) conta, ainda, com a presença de Brad Davis. Aos 40 anos, o talentoso e belo jovem de filmes como O Expresso da Meia-Noite, Carruagens de Fogo e Querelle, aqui, já representa um maduro e sonhador pai de família – e que família!

Logo de cara, vemos Rosalie flanando pela casa em seu robe-de-chambre esvoaçante como se vivesse num perfeito comercial de margarina. Ela é uma dona-de-casa alemã casada com Ray Greenspace, um piloto americano a quem chama carinhosamente de Liebling. Eles estão casados há alguns anos, vivem no antiquado estado americano do Arkansas e têm sete filhos com personalidades muito definidas (incluindo as divertidas gêmeas simétricas).

De repente, o que parecia o retrato de uma família pacata e feliz vai se transformando numa viagem quase surreal – percebemos que algo estranho se passa com essa mulher, que começa a revelar um padrão de vida muito diferente do esperado para a esposa de um simples piloto pulverização de plantações. Logo descobrimos que ela é uma refinada falsária, trambiqueira e perdulária. Tudo sem culpa – afinal, como boa católica, Rosalie tem sempre o auxílio indulgente da confissão. O mecanismo é simples: ela procura o padre local (Judge Reinhold) e pede perdão em troca de meia dúzia de aves-marias, cada vez que comete um delito, que pode ir desde falsificar um cheque até esvaziar a poupança dos filhos ou ainda pagar faturas de cartão de crédito com outros cartões. Quase levando o pároco à loucura, ela responde impávida: “estou só pegando a minha percentagem!”

Rosalie tira da vida o que ela tem de melhor: comer, beber, rir e sonhar. Para si mesma e sua família. Mas, claro, que a busca pelo sonho americano acaba se transformando num duro pesadelo capitalista. E quem diria que, no final dos anos 80, Adlon iria colocar nas telas uma metáfora perfeita para a crise que o sistema financeiro americano iria viver nos anos seguintes (e que perdura até hoje)? É a sociedade de consumo desenfreado, regrada pela economia do saco-sem-fundo e regida por máximas como: “grana alta entra, grana alta sai”, “se você deve cem mil pra alguém, o problema é seu; se deve um milhão, o problema é do banco” e, finalmente, “os bancos tiram proveito da gente legalmente, a gente se vira como pode”.

Há, no filme, detalhes que merecem ser notados. Repare na jovem namoradinha tipicamente americana que não entende patavina para além das fronteiras do Arkansas. Observe a câmera subjetiva utilizada para designar o olhar das personagens diante da vida, além dos filtros coloridos (como já se vira em Bagdá Café) e o uso da luz não realista. Note os efeitos sonoros e de computador propositadamente toscos e, por conseqüência, hilários. Por fim, veja como Adlon faz de Rosalie uma precursora dos modernos hackers de computador diante de um prosaico PC276-X. Um pecado que a igreja católica ainda não havia previsto.

Dica importante: veja também os créditos do fim do filme. O diretor guardou umas surpresas deliciosas pro final.

CLÁUDIO CURI ACRESCENTA:
Este é o último filme que Percy Adlon e sua descoberta, Marianne Sägebrecht, fizeram juntos, antes de ambos irem para o cinema americano, sem alcançarem maiores projeções. No caso de Adlon, com exceção a Escrito nas Estrelas (1993), com a francesa Julie Delpy e o americano Brendan Fraser.

Em Rosalie Vai às Compras é mesmo notável a participação do americano Brad Davis. Oriundo do teatro e de séries televisivas, Davis se consagrou pelo grande sucesso O Expresso da Meia Noite, magnífico filme de 1978, dirigido por Alan Parker. Mas brilhou em Querelle (1982), filme póstumo do alemão Rainer Werner Fassbinder, pouco conhecido no Brasil, no qual interpreta um marinheiro que se envolve com homens e mulheres, no  porto de Brest (França).

Querelle traz, também, uma participação extraordinária da grande atriz francesa Jeanne Moreau que, em determinada cena, canta uma música que tem como letra a famosa frase de Oscar Wilde Todo Mundo Mata Aquilo Que Ama (Each man kills the thing He loves). O último filme de Davis foi O Jogador, de Robert Altman, datado de 1991, ano de seu prematuro falecimento, vitimado pela aids, aos 42 anos.

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