“Por que a morte é a primeira noite de tranquilidade? Porque finalmente se dorme sem sonhos!” Goethe
CLÁUDIO CURI DIZ:
Valério Zurlini (1926-1982), um dos maiores cineastas italianos de todos os tempos, é o diretor preferido de nosso grande Carlos Reichenbach, a quem fazia homenagem na maioria de seus filmes, como em “Dois Córregos”, por exemplo. Nascido em Bologna, estudou direito, tendo estreado no cinema em 1948, com curtas-metragens, antes de desenvolver uma obra intimista, composta por oito longas, iniciada com Quando o Amor é Mentira e finalizada em 1976, com O Deserto dos Tártaros.
Assim como Bergman e Antonioni, os filmes de Zurlini eram carregados de um forte teor existencialista. Mas, diferentemente de seus contemporâneos, fugia da busca pela inovação, partindo de tramas simples e novelescas, com pitadas de melodrama, sem perder as referência existencialistas, como em um de seus filmes mais famosos, A Moça com a Valise.
Alcunhado de “O Poeta da Melancolia”, tinha em seus filmes um cuidado estético e visual, fazendo dos cenários pontos primordiais para o desenvolvimento de seus personagens. A belíssima sequência de abertura de A Primeira Noite de Tranquilidade, ambientada no cais de Rimini (cidade natal de Fellini), embalada pelos gemidos de um saxofone, nos traz o protagonista (Alain Delon) caminhando solitário, tendo ao fundo o vento forte, o mar encapelado e nuvens escuras anunciando a chuva iminente. O professor Daniele Dominici (Delon) com seu sobretudo pesado e envelhecido, barba por fazer, cigarro na boca, mãos nos bolsos, é a própria melancolia personificada.
Será que existe paisagem mais melancólica e solitária que praia em dia de chuva? Esta imagem será recorrente ao longo da projeção.
A Primeira Noite de Tranquilidade é a reflexão sobre a destruição e a decadência de uma família. Alain Delon é o professor de literatura, vindo de um casamento arruinado com Lea Massari (magnífica), que volta a Rimini, no inverno, para lecionar e acaba de apaixonando por uma aluna, Vanina (nome tirado de uma personagem de Stendhal, do romance Vanina Vanini), interpretada pela belíssima Sonia Petrova, que traz um passado escuro ligado à prostituição e a um namorado rico que a maltrata. Fortemente atraídos reciprocamente e identificados na melancolia, iniciam um perigoso jogo de sedução, com diálogos brilhantes e cheios das metáforas de Zurlini. E, juntos, tentarão começar uma nova vida longe de tudo.
O filme conta com participações especiais de Renato Salvatore e do jovem Giancarlo Giannini, como o melhor amigo do protagonista. Delon, aos 37 anos, traz aqui, em minha opinião, a melhor interpretação de sua carreira. Famoso pela lendária beleza, conta-se que, nas filmagens de O Rolls-Royce Amarelo, filme de 1964 do diretor britânico Anthony Asquith, sua co-estrela Shirley MacLaine que, ao ser indagada pela imprensa sobre o que achava de Delon, respondeu: ‘É a coisinha mais linda que já vi, depois de Elizabeth Taylor!’
Apesar de a crítica considerar Verão Violento e Dois Destinos como suas obras primas considero La Prima Notte de Quiete o grande filme de Valério Zurlini. Disponível em DVD, programa imperdível.
GERSON STEVES ACRESCENTA:
Ao ver os créditos iniciais da cópia restaurada de A Primeira Noite de Tranquilidade, fiquei surpreso ao saber que o trabalho se devia a um certo Instituto Philip Morris de Cinema. Ao começar a ver o filme, isso fica perfeitamente claro: nos primeiros 20 minutos de fita, parece que o filme existe apenas para que as pessoas fumem – a ponto do assunto ser levado para dentro da sala de aula numa discussão que envolve, de um lado, o professor cool e sexy que defende o direito dos alunos fumarem em sala e, de outro, o diretor reacionário e moralista. Mais adiante, o personagem de Delon para numa banca de jornais e pede por um pacote de Gauloises, o famoso cigarro francês que era o favorito do existencialista Jean-Paul Sartre.
E é aí que a coisa fica boa: a vocação existencialista (por conseqüência ateia) que o filme possui e que se choca frontalmente com a formação católica jesuítica de seu autor. Some-se a isso a paixão de Zurlini pelas artes plásticas – em especial, a arte sacra. O que provoca sequências antológicas com citações dos evangelhos e divagações, como por exemplo a cena em que o casal central dialoga sobre o olhar de resignação da Virgem Maria (no afresco da Nossa Senhora do Parto, de Piero della Francesca).
São muitos os aspectos a serem notados e citados no filme. A começar pela única e forte cena da então veterana Alida Valli, interpretando uma velha prostituta que teria iniciado a própria filha na vida sexual, ainda na adolescência, para, depois, chantagear seus clientes. Outro assunto que fica faiscando por detrás da bruma invernal é a homossexualidade latente de vários personagens: além da lésbica confessa, o personagem de Delon é acusado por sua esposa de deitar-se com homens e mulheres. Noutro momento, fica claro que o personagem de Giancarlo Gianinni é apaixonado pelo taciturno professor de literatura. E até o antagonista, na antológica cena da boate, ousa uma piscadela ao sedutor rival.
Sim, é um filme forte. E extremamente atual; tanto no conteúdo quanto na forma. As metáforas são sutis, a construção das personagens acontece de forma quase que literária – elas não são apresentadas pelo que dizem, mas pelo seu entorno, pela cenografia, pela direção de arte e pela paisagem. E é a paisagem que determina e delineia o perfil psicológico profundamente niilista desse homem que nega seu passado conservador e procura um sentido para sua vida. Em tempo: o filme se passa em Rimini, cidade natal de Felinni e parece uma continuidade mais dura e menos onírica de Amarcord.
Zurlini foi uma surpresa para mim e, com certeza, será para qualquer um que se aproxime de sua obra.











































